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Friday, November 28, 2003

Ernst Udet - 22 Agosto 1918 

Vou passar a publicar relatos escritos por Ernst Udet, contando, na primeira pessoa episódios por ele vividos durante a primeira grande guerra. Revelam extraordináriamente o ambiente e o dia-a-dia de um piloto de caça em 1918. Udet era líder da Jasta (esquadrilha de caça)4 pertencente ao famoso grupo Richtofen. Com apenas 22 anos de idade Udet foi o ás alemão que sobreviveu à guerra com mais vitórias. O relato que vou publicar foi traduzido por mim de uma versão em inglês e foi escrito por Udet em 1935, 17 anos depois dos acontecimentos.

22 de Agosto de 1918

Uma voz excitada ao telefone: Dois balões de observação acabaram de ser abatidos aqui! A esquadrilha inimiga ainda circula sobre a nossa posição!

Descolamos de imediato. Toda a esqudrilha 4 com todos os aviões disponíveis. Voamos na direcção de Braie, a 3000 metros de altitude. Por baixo de nós está a linha de balões alemã e, obliquamente acima está a esquadrilha inimiga, cinco SE5a. Ficamos por baixo deles e esperamos pelo ataque. Mas eles mantêm-se lá em cima e parecem querer evitar o combate.

De repente, um dele passa por mim em direcção aos balões. Mergulho atrás dele. É o líder. Vejo as marcas no seu avião. Continuo sempre para baixo, baixo...O ar bate com violencia no pára brisas à minha frente . Tenho de o apanhar e impedi-lo de atingir os balões.

Tarde demais! A sombra do seu avião passa sobre a pele do balão como um peixe debaixo de água turva. Uma pequena chama azul surge e propaga-se lentamente pela superficie do balão. No momento seguinte ergue-se uma montanha de fogo onde estava há pouco um balão amarelo com um brilho sedoso.

Numa curva muito apertada o inglês vai quase directamente para baixo. As tropas no cabo do balão dispersam-se, mas o SE5a já se endireitou e move-se agora em direcção a oeste, rente ao solo. Ele está tão baixo que a sua sombra e ele se fundem num só. Mas agora estou na sua cauda e começa um louca perseguição a pouco mais de 3 metros de altitude. Saltamos sobre postes telefónicos e evitamos árvores. Damos um grande salto sobre a torre da igreja de Méricourt, mas mantenho-me atrás dele. Estou decidido a não o largar.

Chegamos à autoestrada que liga Baupame a Arras. Flanqueada por árvores, serpenteia pela paisagem como uma parede verde. Ele voa à direita das árvores, eu à esquerda. Sempre que há um intervalo nas árvores eu disparo. Ao lado da estrada está acampada uma unidade de infantaria alemã. Apesar de eu estar sobre ele, o inglês dispara. Isto é a sua perdição. Nesse momento eu voo sobre as árvores, a menos de 10 metros dele e disparo. Um termor percorre todo o seu avião, desacelera e cai, bate no solo subindo outra vez como uma pedra saltando na água, e desaparece por deatrás de um pequeno arvoredo. Uma nuvem de fumo levanta-se.

O suor cai pela minha face e enevoa-me os óculos. Limpo a testa com a manga. Estamos no pico do Verão, 22 de Agosto , meio-dia e meia, o dia mais quente do ano. Quase 40 graus centígrados, e durante a perseguição, o meu motor rodou a 1600 RPM.

Olho á volta e vejo 3 SE5a. Despistaram a minha esquadrilha e mergulham na minha direcçã para vingarem o seu líder morto. Junto ao solo, voo à volta do arvoredo. Deito rápidos olhares sobre o meu ombro. Eles separam-se, dois indo para oeste, deixando-me apenas um deles. Sei agora que estou a lidar com oponentes com experiência de combate. Novatos atirar-se-iam a mim em grupo. Pilotos de caça experientes sabem que numa perseguição apenas ficamos no caminho uns dos outros.

As coisas estão más pra mim. O outro aproxima-se Estimo a distância a apenas 30 metros, mas ele ainda não dispara. "Ele quer acabar comigo com apenas 3 ou 4 balas" penso eu.

A paisagem consiste em suaves elevações pontilhadas de pequenos aglomerados de árvores. Curvo á voltas das árvores. No meio de umas árvores vejo uma unidade de metralhadoras alemã. Eles olham para nós. "Se eles disparassem e me libertassem do meu predicamento". Mas ele não o fazem. Talvez eu esteja demasiado próximo do inglês e tenham medo de me atingir. Observo a paisagem. Então será aqui que eu irei cair!

Então sinto uma pancada no meu joelho. Olho para baixo e noto o odor de fósforo e um buraco na caixa de munições. O calor inflamou as balas inflamáveis de fósforo. Numa questão de segundos o avião estará em chamas!

Numa situação destas um homem não pensa. Age ou morre. Aperto o gatilho e, de ambas as metralhadoras saem as balas, em direcção ao céu azul, deixando um rasto de fumo branco. Olho sobre o meu ombro e tenho uma surpresa que me deixa sem fôlego. O inimigo volta para trás, evitando o fumo branco. Provavelmente pensa que eu estou a disparar para trás. Inspiro profundamente, enchendo os pulmões. Volto para a base.

Depois de aterrar fico sentado no cockpit durante um bom bocado. Beherend, o meu mecânico, tem de me ajudar a sair do avião. Vou para a sala de oficiais.
- O tenente Goering chega hoje à noite. - diz o sargento
Olho para ele com olhos vagos.
- Goering, o nosso novo comandante. - continua ele
-Sim, sim... - a minha voz soa-me estranha. Quero ir de licença. De imediato. Ele não me deve ver assim.



JoaoM

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