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Monday, November 07, 2005

Sven Hassel - excerto 

Miudinho estava a enrolar um cigarro com muito cuidado. Durante os quatro meses em que estivera no hospital apanhara conscenciosamente todas as beatas que a malta deitava fora e agora possuía um enorme saco de tabaco. A pobreza ensinara-o a não deitar nada fora, tudo podia vir a servir.

- Achas que me darão uma licença se me casar com a Emma? - perguntou passando pelos lábios a mortalha do cigarro.

O legionário desatou a rir:
- Claro que não. O Hauptfeldwebel dirá que tu és o idiota do regimento e que os idiotas não se devem casar. E, realmente, vendo bem as coisas, para que é que hás-de ir fazer viúva uma menina tão gentil?

- Cala-te praí! Sabes muito bem que a Emma não é nenhuma menina gentil. É um tanque que pode aplicar uma tareia ao Hauptfeldwebel Edel de que ele não se recomporá.

- Edel dir-te-á que a morte do herói é a tua única hipótese, senão irás parar a um campo de extermínio como perigo público!
Esta evocação levou-nos a fazer um carão.

- Não percebo - disse Miudinho.
- Não me digas! - gozou Bauer
- Não passo dum porco saído duma casa de correcção. A minha mãe estava-se nas tintas para mim e para os meus irmãos e nunca vi o meu pai sem ele estar bêbado. No internato, ou nos batiam ou nos batíamos uns aos outros. Há para aí alguém que saiba o que é uma casa de correcção? - Ninguém respondeu - Não, já calculava. É o Inferno. Não havia escola. Não precisarão dela para nada, dizia o director, um padre despadrado da Turíngia, já muito velho. Dizia-se que fora amante da mulher do organista e que o haviam expulsado da igreja por causa disso. E realmente era verdade que para arrastar postes de ferro ou abrir fossas não era preciso ler nem escrever. Depois fiz-me soldado- porque não se esqueçam de que eu sou do activo, não sou reservista. Disseram-me : Partes para a guerra para defenderes a Pátria. Perguntei aos meus botões porque é que eu havia de defender a Pátria, que nunca fora boa para mim, mas também não era por minha causa que estávamos em guerra. Então comecei a defender a Pátria. Contra os bárbaros, inimigos sem piedade disseram eles. Está bem. E lá comecei a combater os bárbaros, inimigos sem piedade. Lá no alto eles lá devem saber o que fazem, Miudinho, porque são mais espertos do que tu. Tu não passas duma cabeça de gado. Disparei para onde me mandaram, pus-me em sentido, pirei-me quando me diziam pira-te. Edurante seis anos passeei com a galinha nazi ao peito.

Miudinho parou e olhou-nos com um ar de malandro.
- Mas agora isto é diferente e ando atormentado. Estou noivo e vou ter vinte e três filhos com a melhor mulher do mundo. - Limpou com a mão rude o rosto grande. - Há aqui ualquer coisa errada. O outro lado, o de Cracóvia, de Kiev, de Sebastopol e doutros sítios onde defendemos a Pátria, se lhes dizíamos: Ouve lá, Ivan Ivanovitch, porque é que me disparas para cima?, respondia-nos: Camarada Fritz, não tenho dúvidas, o pai Estaline disse que era isso ou um tiro na barriga! - Miudinho bateu com a mão na cabeça: - Digam-me lá se não andamos cegos, tanto nós como eles?

O legionário olhou à volta, fechou precipitadamente a porta do corredor e disse brutalmente:
- Cala a boca urso! Senão enforcam-te, quer o Ivan compreenda ou não.
- Mas é isso mesmo que eu digo! - gritou o Miudinho. - Em toda a parte nos explicam o que temos a fazer, mas aqui dizem-me só: Calado! Faz o que te dizem ou lixas-te! Eu cá não percebo.
- Não tem importância nenhuma. Obedece. É mais saudável para ti como para nós. Se pensas muito ficas doente. A tua cabeça não é para isso, é boa para trazer o capacete e para mais nada.

Miudinho encolheu os ombros.
- És capaz de ter razão, nómada.

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